O JOGO E SUAS IMPLICAÇÕES NA PSICOPEDAGOGIA - por Gleide Moreira Teixeira Guimarães

16/08/2015 16:51

O JOGO E SUAS IMPLICAÇÕES NA PSICOPEDAGOGIA

Gleide Moreira Teixeira Guimarães

Psicopedagogia e jogo, dois pilares que ajudam a compor a aprendizagem. Esta, por sua vez, é a articulação entre saber, conhecimento e informação e se dá pela observação do objeto, pela ação sobre ele, pelo desejo e pela interação com o meio. É uma construção singular que o sujeito vai fazendo segundo seu saber e vai transformando as informações em conhecimento, deixando sua marca como autor e vivenciando a alegria que acompanha esse processo. E, como sabemos a psicopedagogia é uma área que trabalha com o processo de aprendizagem e suas dificuldades, deste modo se torna relevante que os profissionais busquem recursos diversos para desenvolver atividades que contribuam para a aprendizagem, socialização e independência dos sujeitos. Dentre estes, temos os jogos e brincadeiras, a informática, a música, os desenhos e tantos outros recursos importantes utilizados no espaço psicopedagógico para o desenvolvimento cognitivo.

Assim podemos observar que o interesse sobre a relação entre o jogo e a educação é remoto. De acordo com Kishimoto (1994) os primeiros estudos sobre jogos datam da Grécia e Roma antigas, em que se colocava a importância do aprender brincando. Este mesmo autor (2000), ainda dizia que a brincadeira e o jogo interferem diretamente no desenvolvimento da imaginação, da representação simbólica, da cognição, dos sentimentos, do prazer, das relações, da convivência, da criatividade, do movimento e da autoimagem dos indivíduos. Há que se levar em conta que todo o desenvolvimento que esses recursos trazem para o indivíduo é pré-requisito para ativar seus recursos de conhecimento.  Assim, vemos que os jogos são recursos que irão colaborar na educação, estimulando o autoconhecimento, a autonomia e a interação social, facilitando a aprendizagem. Para os Vygotiskianos, (apud Kishimoto, 1994, p.42) “os jogos são condutas que imitam ações e não apenas ações sobre objetos ou uso de objetos substitutos”.

Os estudos que originaram esse artigo buscaram compreender a importância do jogo para ativar os recursos de conhecimento do indivíduo, os processos de aquisição de aprendizagem e quais são suas implicações na psicopedagogia. Desenvolvi este trabalho iluminada por alguns dos teóricos que sedimentam a minha prática, e fizeram-me sistematizar e aprofundar meus conhecimentos a cerca deste assunto, levando-me a desenvolver análises crítico-reflexivo sobre o tema.

PIAGET E O JOGO INFANTIL

Os estudos que evidenciam o jogo como fator de grande importância pedagógica foram, em sua grande parte, influenciados por Piaget e sua obra nos anos 70. Ele afirma que "O jogo é um tipo de atividade particularmente poderosa para o exercício da vida social e da atividade construtiva da criança" (Piaget, 1975); por meio do jogo a criança assimila o mundo para atender seus desejos e fantasias. Segundo ele (1975) o jogo segue uma evolução que se inicia com os exercícios funcionais, continua no desenvolvimento dos jogos simbólicos, evolui no sentido dos jogos de construção para se aproximar, gradativamente, dos jogos de regras, que dão origem à lógica operatória.

Então, observamos que, segundo Piaget (1975):

·         o jogo de exercício representa a forma inicial do jogo na criança, acompanhando o ser humano durante toda a sua existência. É quando ela repete uma determinada situação por puro prazer, por ter apreciado seus efeitos.

·         o jogo simbólico são exercícios onde a criança utiliza sua imaginação, ou seja, o pensamento egocêntrico. É o mundo do faz de conta, onde o símbolo implica a representação de um objeto ausente. Desta forma a criança que “alimenta” uma boneca imaginando ser um bebê, representa simbolicamente o bebê pela boneca.

·         o jogo de regras é a última fase em que Piaget classifica os jogos. Aqui as crianças passam do individual e vão para o social, uma vez que os jogos possuem regras básicas e necessitam de interação entre elas. Desse tipo de jogo resulta a aprendizagem de regras, de comportamento, construção de relacionamentos afetivos, e respeito às ideias e argumentos contraditórios. Com os jogos de regras podemos analisar por traz das respostas, informações sobre os conhecimentos e conceitos do sujeito.

Esses níveis de conhecimento (Piaget, Apud Jean Marie Dolle, 1987) são paralelos ao desenvolvimento cognitivo e podem ser classificados como:

·         Motor - não há atividade social e não apresenta nenhuma compreensão de regras;

·         Egocêntrico - adquire a consciência da existência de regras como fixas e começa a querer jogar com outras crianças, dando-se os primeiros traços de socialização;

·         Cooperação - há compreensão quase plena das regras do jogo;

·         Codificação de regras - a maioria passa a entender que as regras são ou podem ser feitas pelo grupo, podendo ser modificadas, mas nunca ignoradas.

Assim, vê-se que cada faixa etária corresponde determinados tipos de aquisições mentais e de organização destas aquisições que são modificadas em função da melhor organização e que condicionam a atuação da criança em seu ambiente. Cada estágio constitui uma forma particular de equilíbrio, efetuando-se a evolução mental no sentido de uma equilibração sempre mais completa e de interiorização progressiva (Piaget, 1975). A origem destas manifestações lúdicas acompanha o desenvolvimento da inteligência vinculando-se aos estágios do desenvolvimento cognitivo. Outro conceito essencial da teoria de Piaget sobre o jogo é a relação deste com o processo de adaptação, que implica dois processos complementares: a assimilação e a acomodação.

A assimilação é o processo pelo qual a criança, quando se depara com determinados problemas do mundo externo, utiliza, para resolvê-los, estruturas mentais já existentes. Já a acomodação é quando a criança se depara com o problema e não consegue resolver com as estruturas existentes, modificando-as. Para Piaget as crianças adaptam-se ao ambiente através do processo de equilibração, ou seja, quando assimilam novas informações e acomodam-nas às suas estruturas mentais, dando-se assim, o equilíbrio entre os dois processos, podendo daí, transformar a realidade. Nesta concepção as etapas de desenvolvimento das crianças são de extrema valia para o entendimento da atividade lúdica e seus efeitos na vida do individuo.

O JOGO COMO RECURSO PSICOPEDAGÓGICO

O psicopedagogo, sendo o profissional que lida com as questões relacionadas ao processo de aprendizagem, tem como missão retirar as pessoas da sua condição inadequada de aprendizagem; fazendo-as perceber suas potencialidades recuperando, desta forma, seus processos internos de apreensão de uma realidade nos aspectos: cognitivo, afetivo-emocional e de conteúdos. Como a ludicidade é um forte atrativo para que os indivíduos se motivem na busca de uma aprendizagem prazerosa, então, temos os jogos como aliados nesta tarefa. Segundo Winicott (apud Weiss, 2004, p.72) “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade, e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu”.

Como vemos os jogos são recursos indispensáveis tanto na avaliação como na intervenção psicopedagógica, pois favorece os processos de aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Sua utilização numa intervenção psicopedagógica apresentada por Jorge Visca e por Lino Macedo, é de que ao se propor um jogo é preciso ter em mente o porquê de jogar, o que jogar, para quem, com que recursos, de que modo jogar, quando e durante quanto tempo jogar, e qual a continuidade desta atividade ao final de seu desenvolvimento. Essa intervenção pode apresentar um caráter preventivo ou curativo. O caráter preventivo vai estimular o sujeito a agir, elaborando previamente estratégias para a solução de problemas; enquanto que o caráter curativo é direcionado para pessoas que apresentam algum tipo de dificuldade na aprendizagem. Nesse caso é preciso identificar essa dificuldade e criar condições favoráveis para superação. Macedo (1997) afirma que: "jogar é fundamental para o desenvolvimento do raciocínio, e traz muitas contribuições para a aprendizagem, principalmente se as crianças têm a oportunidade de exercitar essa atividade com frequência”. Por isso na escolha dos jogos que serão utilizados, o psicopedagogo deve conhecer as condições e necessidades de cada etapa evolutiva na construção de seus esquemas de conhecimento. Como podemos observar o aspecto colocado por Lino de Macedo, compatível com Nádia Bossa (2000, p. 23), que afirmar que cabe ao psicopedagogo: “... saber como se constitui o sujeito, como este se transforma em suas diversas etapas de vida, quais os recursos de conhecimento de que ele dispõe e a forma pela qual produz conhecimento”.

Essa atividade pode nos dar respostas quando o indivíduo não consegue expressar-se verbalmente e o faz através do jogo. Porém faz-se necessário atentar que o psicopedagogo não interpreta, mas procura compreender as manifestações simbólicas, buscando adequar as atividades lúdicas às necessidades de cada indivíduo e o momento que devem ser utilizadas, a fim de promover a ativação dos seus recursos de conhecimento sem atacar o sintoma.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para concluir, é interessante relembrar a ótica da teoria da psicologia genética, tendo Piaget (1975) como uma das principais expressões. Onde o brincar e o jogar representam uma atividade por meio da qual a realidade é incorporada pelo indivíduo e transformada, quer em função dos hábitos motores nos jogos de exercícios, quer em função das necessidades do seu eu no jogo simbólico ou em função das exigências de reciprocidade social nos jogos de regras.

Evidentemente o psicopedagogo deve saber o momento exato de interferir e de que maneira deve intervir a fim de estimular no indivíduo entendimentos e novas ações, de modo a ajudá-lo a conhecer outras possibilidades de aprendizagem. Essa intervenção pode estar baseada na solicitação da justificativa, onde o conhecimento das estratégias usadas pelo indivíduo proporciona conhecimento de si mesmo e um modelo para resolver outras situações vividas no dia-a-dia (Visca, 1987).

Enfim, o jogo é um excelente recurso para o atendimento psicopedagógico, porém é preciso que o psicopedagogo, ao usar o jogo como recurso de intervenção preserve a ludicidade usando-o como instrumento de vinculação afetiva e cognitiva com as situações de aprendizagem. Para tanto é preciso que o psicopedagogo faça intervenções de caráter subjetivo, para que o sujeito vá se perebendo e se construindo como pessoa aprendente.

Por Gleide Moreira Teixeira Guimarães

 

REFERÊNCIAS

DOLLE, Jean-Marie. Para compreender Jean Piaget: Uma iniciação à psicologia Genética Piagetiana. Jean. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 1987.

KISHIMOTO, Tizuko M. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2000.

_______, O Jogo e a Educação Infantil . São Paulo : Pioneira, 1994.

MACEDO, Lino. Ensaios construtivistas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.

_______, Lino. Quatro cores, senha e dominó. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

BOSSA, Nádia. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 2ª edição, revista e atualizada. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

_______. O desenvolvimento do pensamento: equilibração das estruturas cognitivas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1977.

VISCA, Jorge. Clínica Psicopedagógica. Epistemologia convergente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.

WEISS, Maria Lucia Leme. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. Rio de Janeiro: DP&A, 2004. 


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